6.11.13

Dochenmachers


Estavam encaixados na cama, ao mar sereno. Os dedos flutuavam, bem devagar, rasantes desenhos nas peles enquanto conversavam. Era uma preguiçosa manhã de domingo.

ela
Sabe, tava pensando aqui quando a gente tiver nossa filha... Ela vai brincar com as bonecas que guardei da minha infância. Aliás, se for menino também.

ele
Claro que não.

ela
O que é isso? Qual o problema dele brincar com a Barbie?

ele
Isso. A Barbie. Olha só o que essa boneca representa.

ela
Não acredito nisso. Você acha mesmo que faz diferença? Que tem como evitar? É uma blindagem boba, a gente não dá e vem algum padrinho, alguma tia ou prima distante e pronto. Além disso minha Barbie é morena.

ele
Mas continua a Barbie.

ela
Porra, muda o nome então. Chama, sei lá, de Susie, de Teresa!

ele
Ou Maria Bonita.

ela
Clarice Lispector.

ele
Rá, sabia, a Clarice de novo. É Clarice ali, Clarice aqui e acolá, Clarice no feicebuque, nem da Barbie ela se safa.

ela
Caraca, tu é chato quando quer, hein? Chama de qualquer merda então!

ele
Taí, 'Qualquer Merda' é bom.

ela faz uma caretinha
Idiota.

(silêncio breve)

ele
Porra, Barbie 'Clarice Lispector' é genial. Pode vir com um baralho de citações.

ela ri
Pára, chega! (...) Ah, sabe, tenho que confessar que cheguei a pensar que você fosse me criticar porque o nosso filho...

ele interrompe
Fred.

ela
Quêisso, maluco, já dando nome pro garoto?

ele
Não, o nome da boneca. É Fred.

ela não entende mas ri assim mesmo
Hã?

ele
Barbie 'Fred Mercury!' A gente pinta um bigode nela, põe uma roupa igual àquela do vídeo 'I want to break free.'

ela suspira, depois de um breve silêncio
Ah, não sei. Discordo, tem que ser internacional, é?

ele
Quêisso, surto nacionalista agora?

ela
Não, mané, a gente tem tanta referência boa por aqui...

ele
Verdade! Mané, por exemplo, lembra até o Garrincha.

ela
Ih, nem vem que ele vai ser flamenguista.

ele
Caralho.


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