2.4.09

enquanto não atropelo na ciclovia


nem esqueci o seu rosto e aquela música cheia de beijos tocou sem pedir licença.
esqueci a letra, mas lembro bem dos beijos. me distraio em qualquer coisa
enquanto reinvento o tempo para o trabalho.
aquela mulher parda de blusa branca, por exemplo. aquela onça
de tés tresloucada, de busto de alvorada,
ela também passará pela mesma cobradora,
pagará dois reais e sessenta centavos
por alguns quilômetros de orla com paisagem e ar-condicionado.
ela tem as curvas elevadas do joá, repousa uma beleza distraída na janela,
ela fecha os olhos e sonha comigo, mesmo sem nunca ter me visto,
e a pedra da gávea está escondida numa nuvem densa de pensamentos.
arrisco o pescoço com alguma imaginação pra acordar cantando.
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23.3.09

da série 'frases de amigos que eu gostaria de ter dito'


tudo ia bem até ela abrir a boca e falar que morcego bota ovo.

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26.1.09

paternidade sem manual


um amigo vai ser pai.


andré:
– tá ansioso?

paulo:
– ô.

andré:
– fica tranqüilo, o manual é auto-explicativo.
não pode é se desesperar com qualquer choro.

paulo:
– quer dizer que se eu chorar é normal?

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22.1.09















guardei a câmera
numa boca azul cheia de sombras
mas foi debaixo de um guarda-sol
sem outras sombras
é que o mar estava lá

ela estava lá

ela estalava
os meus olhos
nas páginas abertas
e numa boca que brisava
uma história
onde eu não
estava lá.

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ele está de volta



o inigualável polpettone di zena
por andré mantelli


1. massa

meio quilo de farinha e uma xícara e meia de leite (pouco sal);
amasse bem, tem que ficar absurdamente compacta.
abra a massa, de preferência até ficar com pouco menos de 2mm de espessura.
ajeite-a com abas para fora numa forma já untada no azeite,
e então está feita a cama para o recheio gostoso que veremos a seguir.



2. recheio

meio quilo de vagem, um molho de espinafre, três senhoras batatas, duas abobrinhas italianas do tamanho da sua consciência, uma berinjela bonita, 400g de queijo parmesão, uma cebola graúda, três belos dentes de alho, mais azeite (português, ó pá!), um ou dois ovos (depende do ovo e da galinha). tem gente que põe manteiga – eu, não. meu pai colocava noz moscada, mas esta é uma discussão pra lá de filosófica agora.

a vagem (v) e o espinafre (e) serão cozidos no vapor; em outra panela deixe a abobrinha (a) e a berinjela (b) fatiadas com a cebola (c) em pouca água; batatas (bb) numa outra caçarola.

junte num liquidificador, processador ou algo que triture e misture tudo, (e), (a), (b), (c), (bb) e ainda o azeite (quatro colheres de sopa), o parmesão, o alho e o ovo (que é pra dar 'liga').

(v) será adicionada e misturada depois na magnânima pasta resultante desta laboriosa e edificante experiência.

despeje tudo na caminha da forma, que a esta altura já estará ávida por receber tamanho carinho. por cima de tudo, mais uns filetes de azeite e farinha de rosca.



3. assar

dobre as abas sem fechar completamente o centro do 'pastelão';
leve ao forno em temperatura média, e retire quando a massa ameaçar dourar.



4. dicas importantes

tente fazer com que todos os processos terminem ao mesmo tempo (não é bom deixar a massa esticada a esperar tanto);

o polpettone se come frio, melhor ainda se guardado de um dia para o outro na geladeira;

e, por favor, usem as mãos no lugar de talheres.


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9.1.09

receita


Chá de infusão,
flores de romã
lascas de romã
chá do alho, socado
cápsulas de echinacea
de seis em seis horas

própolis com malva
própolis com mel
própolis in natura

suco de couve com laranja e cenoura
chá de gengibre
chá de limão
chá de limão e gengibre
pode pôr mel também

gargarejo com romã
sal e limão pra gargarejar também
hortelã e limão

mas o que funcionou, meu bem
Foi a injeção.


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31.12.08

ticket













os dias passearam sem que dessem a chance de reencontrar os meus passos.
quando aportei em mim novamente a salinidade do verão, descarreguei um amor eterno enquanto céu.
eu vi, virei, toquei um samba e era meio-dia, o tempo me ensinou a dançar tanto que virou bossa e durante isso tudo reaprendi a cantar a música que sabia que existia em mim, ali, viva, de um presente comicamente germinal.
quantas vezes abri os olhos como se fosse a primeira vez na imensidão.

abracei a paixão das estações e, enfim, aprendi a primeira lição dos navegadores.
o que é preciso e o que não é, mas descabidamente bom.

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