29.6.09

frases póstumas de gente muito viva


'o orkut é a gentalha da internet'. nelson rodrigues.

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11.6.09

depois do cinema


entre uma sessão e outra, houve um segundo de contemplação. era um salão oco e angular onde o silêncio relinchava na madeira do assoalho. palmas aleatórias voavam na acústica impossível entre mesas. pipocas estorvavam, pensamentos estouravam. resolvi tapar um pouco os ouvidos, e então minhas letras se tornaram incompreensíveis.

uma mulher acompanhada de seus quase 75 anos aparentava uma tranqüilidade obtusa. estava vestida de esmeralda pálida, tinha cabelos perolados respeitáveis e fala incisiva. uma mulher cujas palavras misturavam no café com leite a repetida insistência de velhas histórias.

seu marido equilibrava a atenção numa bengala. seus olhos eram cheios de dias, dias e mais dias. parecia debruçado na janela do tempo, embevecido pela paciência das paisagens.
ou quem sabe vagueava com toda a sorte de seres fantásticos, salamandras, sereias, sirigaitas.

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30.5.09

motivação nuclear


tenho uma pedra guardada
inexpugnável
um pedaço em mim
despolido
travesso
uma pedra de rim
em um sujeito
despoluído
avesso
tenho uma pedra de canto
que me dá algum brilho mineral
nos olhos
e ela magnetiza
atravessa
está lá e aqui
toda vestida de signos
assim
tenho uma pedra que move
e que por isso desconfio que seja
um torcicolo ou
uma montanha de filosofia.
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14.5.09

diálogos de presente

vamos, que tal uma sinuquinha com cerveja, alguma luz de neon pra mudar de cor as idéias, sim, vamos, já estou anuviado de tanto olhar pra telinha, mais uma mordida nessa pizza, mais uma, quer mais, não, pode apagar, então vou colocar um tênis, uma camisa, alguma coisa, a vida é doce, até mesmo nessa noite bonita de maio, então lá iam as traças ávidas quase reencontradas nos espelhos ocres da lapa quando dois olhos acenderam de repente.
– meu bem, o armário está cheio de formigas.
– lógico, são as calcinhas.
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2.4.09

enquanto não atropelo na ciclovia


nem esqueci o seu rosto e aquela música cheia de beijos tocou sem pedir licença.
esqueci a letra, mas lembro bem dos beijos. me distraio em qualquer coisa
enquanto reinvento o tempo para o trabalho.
aquela mulher parda de blusa branca, por exemplo. aquela onça
de tés tresloucada, de busto de alvorada,
ela também passará pela mesma cobradora,
pagará dois reais e sessenta centavos
por alguns quilômetros de orla com paisagem e ar-condicionado.
ela tem as curvas elevadas do joá, repousa uma beleza distraída na janela,
ela fecha os olhos e sonha comigo, mesmo sem nunca ter me visto,
e a pedra da gávea está escondida numa nuvem densa de pensamentos.
arrisco o pescoço com alguma imaginação pra acordar cantando.
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23.3.09

da série 'frases de amigos que eu gostaria de ter dito'


tudo ia bem até ela abrir a boca e falar que morcego bota ovo.

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26.1.09

paternidade sem manual


um amigo vai ser pai.


andré:
– tá ansioso?

paulo:
– ô.

andré:
– fica tranqüilo, o manual é auto-explicativo.
não pode é se desesperar com qualquer choro.

paulo:
– quer dizer que se eu chorar é normal?

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