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25.11.11

senza macchina _ 1


conversávamos e a luz entrou no tempo de um café frio. ouvimos a janela no primeiro silêncio.

'como é mesmo o nome do cara que faz todos os barulhos ao mesmo tempo?'

como? 'é, na frente, atrás, por todos os lados.' com os instrumentos, você quer dizer;

'sim, com os instrumentos. é o homem de uma banda só.'

desenhei as palavras nos olhos dela durante algum instante e, quando as entendi, fui até a varanda procurar o fulano, e lá estavam a copa de amendoeira e a feira (as quintas-feiras têm as suas próprias cores) e entre uma e outra lá ia ele frisando o mercado, vestindo amarelo velho e vento.

cantava o dia com as barracas, voava música muito além do corpo. era um forró com a cara à banda e voz, tambores, pombos e escola.


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7.3.10

inverno de verão


um gosto afiado de morte na boca.
um alfinete trespassado
qual inseto raro assassinado num isopor barato.
uma janela que não é minha
e que não está aqui
porque a que vejo tem uma madeira ardida
que só existe lá no interior.
não consigo compor uma música para mim
e por isso penso que os dias acabaram.

(os mesmos dias,
as mesmas músicas,
o mesmo gosto)

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20.10.09

se fizer bom tempo amanhã

sentimentos e abduções


chove no rio de janeiro; chove uma chuva de seda.

a paisagem congelou dentro de um painel amanteigado de papel para presentes.
daqui vejo a história oficial iluminada, lá em cima do morro,
e um friozinho de mentira que só serve mesmo pra contar vantagem.
não é nada sério, só uma impressão de natal.

o resto, tudo normal para a hora e para uma noite mineral:
alguns uivos mansos de carros distantes; a ilusão de ouvir as ondas do alto do catete; uma sinfonia de cricris lá fora; o efeito da maresia no cheiro do tijolo molhado; as cadeiras que não estão nas calçadas; as janelas sérias, circunspectas; poças, pensamentos e o tempo;
é, acho que é isso, talvez seja o tempo.

há uma densidade curiosa no ar. chove na cidade maravilhosa, os cães não ladram e mesmo assim a caravana não dorme. longa mesmo é a madrugada como a de ontem, quando peguei um fanzine chamado kombi, de onde vi das janelas em quadrinhos algumas esquinas que só percebemos de noite (dependendo de onde você estiver, é possível que não reconheça o próprio lugar onde vive). nunca os viadutos foram tão sinuosos, e cada palavra dita era uma multidão. éramos poucos, mas de número suficiente para compartilharmos nossa solidão no caminho para casa. então isso logo passou. como a kombi não era minha, tive que acabar o percurso a pé, num silêncio insone. por onde andava, parecia não haver sombras.

agora estou aqui, na beira de uma das minhas duas margens. dou um suspiro de felicidade ao fitar pela janela nova. acho que nada nem ninguém desafiará meu sono agora. por exemplo, neste exato momento acabei de descobrir que temos uma mosca noturna na região. quero dizer, tínhamos.

o dia ficou tarde e o erário de verão chegou.

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18.8.09

boas-vindas

– chegou a hora de você ouvir todas as importantes considerações sobre o chuveiro.
– como assim?
– é o seguinte, nós também não gostamos, mas ele funciona assim: ou tem pouca água e é um escalda-pele ou é frio à beça e também tem pouca água.
– ah, tá tudo bem..
– e a descarga, olha, é para apertar que nem homem, daí o troço solta lá um som gutural rouco.
– mais alguma coisa? imagino que a pia..
– é, a água da pia também é pouca. mas dá pra usar.
– obrigado, não podia estar mais feliz agora.

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14.8.09

desenho de janela (apenas o essencial)

bom dia,
veias entupidas de piche,
tiras de luz a pino,
deslocamento pendular
sem eixo,
sem eira,
nem beira.

todo dia é sempre igual:
as veias esticadas ao sol,
as pessoas dentro delas
e que nelas divagam
obstinadas,
obliteradas,
absorvidas.

bom dia,
pode acreditar,
é um sotaque fácil.
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8.7.09

prático




















as noites parecem mais longas. nem os lençóis da cama cobrem os pensamentos. escuto hipnagogicamente variações do jacques loussier trio sobre as gymnopédies do satie. aquela luz panorâmica de abajur é o meu laptop, e sou conduzido até ela. nos tornamos sobreviventes do tempo, e aquela luz me lembra apenas uma parte do espectro de uma metrópole velada de estrelas, de onde sempre tilintavam intermináveis códigos musicais.

estou aqui escorado numa tampa aberta de estante, um remendo de prancheta que me traz alguma satisfação. às vezes me impressiono como consigo encher rapidamente meu local de trabalho com apetrechos, cacarecos, espécies de widgets do mundo analógico, coisas últimas de primeira hora. são conexões, memórias, manuais, anotações em tudo quanto é tipo de papel (há sempre uma grande quantidade deles espalhada por aí para não desprevenir idéias), uma variedade de canetas próprias para esboços únicos (adequadas ao peso e à velocidade da imaginação), uma caneca verde de café esquecida com o primeiro gole, fios que se cruzam e alguns mosquitos filhos da puta deste nosso querido patropi.

a cadeira é confortável. é uma das coisas que ainda carrego comigo, de um ultrapassado empreendedorismo delirante. manter a postura correta, mesmo que seja apenas uma sugestão, inspira saúde. digo, é um belo assento para experimentar inquietude. quem sabe não seria a mesma coisa com um banquinho velho de madeira ou até mesmo um engradado de cerveja. ou um cajón. existem soluções ergonômicas que mal funcionam no ritmo de um ansioso. 

quase sempre o fim do dia é o início da manhã. o silêncio é tudo o que preciso e o único barulho que o entrecorta é o da água que transborda da caixa d'água da minha cabeça. a esta hora o travesseiro é a única companhia e testemunha de uma travessia pelejada na madrugada em transe. escrevo sobre a sombra da minha mão, deitada por uma luz pinacular tão amarela quanto meus olhos insones. tenho que levantar cedo, tarefa robótica que tenta expurgar o sono tardio do despertador. não existirá carcaça que resista ao mau uso.

não gosto da minha primeira cara no espelho. parece um retrato amarrotado recuperado da lixeira. até desenrugar a folha já terei gravado na mente alguns anos a mais. por isso, a água fria no rosto, além de hidratar a pele, te faz esquecer dessas idiotices.

pronto. parece que voltei ao presente novamente. com ele, algumas evidências de realidade. no banheiro, os azulejos cor-de-rosa dos anos cinqüenta me lembram que tenho que trocar a válvula da descarga, ou alguma tarefa parecida com isso. é evidente que a minha inoperância quelônia para assuntos de engenharia civil torna-me incapaz de compreender como funciona um mecanismo tão complexo, composto por pêndulo e bóias acionados pela tal válvula desgastada. ela deve ser a mola que falta no meu cérebro.

porém, não teria a menor vergonha de chegar na loja e dizer em alto e bom tom, 'olha, tenho um problema muito sério na sinapse que me torna inepto em aprender sobre o mais inofensivo dos sistemas hidráulicos, então, por favor, poderia me explicar sobre isso bem didaticamente como se eu fosse o seu neto?' o sujeito atrás do balcão, que bem poderia ser o meu avô – e com um pouco de sorte até seria – demoraria um pouco para reagir às minhas palavras, demonstrando toda a sabedoria e paciência de um ansião do comércio; ou quem sabe seriam os segundos mais longos de uma incredulidade mordaz por causa de tamanha parvoíce.

o café da manhã me reserva um lugar à janela. devoro duas metades de mamão quase soterradas pela granola enquanto penso no destino pictórico das minhas fotografias. antes de sair, alguns rastros de imagens tornam-se menos memórias que ilustrações editadas, prontas para mais um dia como outros tantos; faca, xícara, espatuladas de margarina, laranja, fogão, fio-dental, dentes, espelho, olhos, chaves, porta, rua, tchau.

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2.7.09

livre como uma feira


ele não imaginava
que tinha o céu
dentro da cabeça.

– não imaginava nada
aliás –

apenas volta e meia apareciam
umas nuvens
com sinceridade de algodão
que eram,
na verdade,
poréns,
contudos,
entre
tantos
outros céus
que o entorpeciam
de azul.

aqui no meio da feira
desbancado por verduras vivas, 
colorido
por toldos
por todos
os lados
e sem perder a mania de descobrimento
de pessoa
que passa além da dor.


era domingo
e ainda flutuava
o cheiro suave
de um sábado molhado.
um domingo de inverno
tão novo,
que deixava a xepa 
pro resto
da semana.

o céu o tinha
dentro da cabeça
e não imaginava mais nada.

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29.6.09

frases póstumas de gente muito viva


'o orkut é a gentalha da internet'. nelson rodrigues.

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11.6.09

depois do cinema


entre uma sessão e outra, houve um segundo de contemplação. era um salão oco e angular onde o silêncio relinchava na madeira do assoalho. palmas aleatórias voavam na acústica impossível entre mesas. pipocas estorvavam, pensamentos estouravam. resolvi tapar um pouco os ouvidos, e então minhas letras se tornaram incompreensíveis.

uma mulher acompanhada de seus quase 75 anos aparentava uma tranqüilidade obtusa. estava vestida de esmeralda pálida, tinha cabelos perolados respeitáveis e fala incisiva. uma mulher cujas palavras misturavam no café com leite a repetida insistência de velhas histórias.

seu marido equilibrava a atenção numa bengala. seus olhos eram cheios de dias, dias e mais dias. parecia debruçado na janela do tempo, embevecido pela paciência das paisagens.
ou quem sabe vagueava com toda a sorte de seres fantásticos, salamandras, sereias, sirigaitas.

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30.5.09

motivação nuclear


tenho uma pedra guardada
inexpugnável
um pedaço em mim
despolido
travesso
uma pedra de rim
em um sujeito
despoluído
avesso
tenho uma pedra de canto
que me dá algum brilho mineral
nos olhos
e ela magnetiza
atravessa
está lá e aqui
toda vestida de signos
assim
tenho uma pedra que move
e que por isso desconfio que seja
um torcicolo ou
uma montanha de filosofia.
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14.5.09

diálogos de presente

vamos, que tal uma sinuquinha com cerveja, alguma luz de neon pra mudar de cor as idéias, sim, vamos, já estou anuviado de tanto olhar pra telinha, mais uma mordida nessa pizza, mais uma, quer mais, não, pode apagar, então vou colocar um tênis, uma camisa, alguma coisa, a vida é doce, até mesmo nessa noite bonita de maio, então lá iam as traças ávidas quase reencontradas nos espelhos ocres da lapa quando dois olhos acenderam de repente.
– meu bem, o armário está cheio de formigas.
– lógico, são as calcinhas.
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26.11.08

auto-retrato, 1



quando criança, preferia uma resma de papéis e um punhado de canetas ao invés da TV. nem por isso perdi os meus programas preferidos.
pipocas antes dos filmes me ensinaram que deles não devemos esperar grandes coisas antecipadamente.
aceito conselhos de trailers. outro dia recebi este: 'nossas expectativas podem nos cegar'.

não ouço com orelhas de livro.
meus caminhos são meus pés e o fogo anda comigo.
faço fotografias cheias de letrinhas, palavras para alimentar os olhos.
folião patrimonial do rio, a cidade é maravilhosa e é a minha língua, meu gosto, minha terra, minha alma salgada. o coração está no mar. a cabeça, costumo esquecê-la onde está.

um peixe embrulhado com bukowski, uma bisnaga para o café da manhã, apostas brancas e henry miller. não sei o nome das coisas, mas elas me conhecem. tenho uma profunda intimidade com os símbolos, por isso muito provavelmente posso estar enganado.

viver é um barato.

acho que envelhecerei ao contário, igual ao poetinha.
sou magro desse jeito, porém se bobear viro um boto. sei imitar o som do flipper.
aprendi a tocar pente e, um dia, serei o regente da maior orquestra de instrumentos metacapilares do hemisfério sul, com direito a uma apresentação popular e democrática no parque do ibirapuera.

quando faço confusão é apenas o incrível exército de brancaleone.
libertei minha biblioteca. as palavras que sustentava até agora que se virem. isso inclui até o baú das vãs filosofias.

sou filho de genovês e faço um pesto que respeita meus ancestrais.
saravá, meu pai.
ninguém pode explicar a vida num samba curto.

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7.11.08

meu querido diário



Cheguei no primeiro de outubro em São Paulo, uma cidade do tamanho de Luís, Fernanda, José, Pedro, Valéria, Débora, Mauro, Rafaela.

Os sons da paulicéia emolduravam uma pauta de alguns dias e,
sobre o Guri Santa Marcelina, sabia um pouco mais do que isto:
um programa social baseado no ensino musical.

Também lembrava que ‘guri’ significa ‘bagre novo’,
ou algo próximo de ‘peixinho’, numa interpretação mais livre.

Já ouvira falar dos centros educacionais unificados
(e com toda a licença poética, verdadeiros céus de oportunidades implantados em regiões de baixa renda).

Ali, convivi alguns dias com uma pequena parte dos 6500 estudantes de 6 a 18 anos que freqüentam cursos de iniciação musical, canto, instrumentos, prática e teoria: Maria e Luciana, Sérgio e Vanessa, Marquinhos, Patrícia, Bruno, Jacque, Amanda.

Não demorou muito para me sentir embalado pela música que nasce e cresce naqueles lugares.

A petizada tinha nos olhos uma alegria de soltar pipa.
Uma alegria que me fez fotografar sem uma tola idéia de invisibilidade. Uma alegria de guri.

A luz quente dos corredores do CEU Vila Curuçá acalentava
o foco.

Quando emprestamos nosso olhar ao novo, reinventamos e sugerimos novas oportunidades de reconhecimento.

O Maxwel sabia disso: –
Experimenta o trompete, vai.

Era uma mão estendida na forma de instrumento de sopro.
E soprei como avivo um pente nas brincadeiras lá de casa (
ah, vai, não sabia que se tira música de pentes?).

O Felipe acreditou: “– Tá, então faz bico, mas não cospe.”

Quando dei por mim, já estava transformado pela Paulinha e pela Dri, pelo Alex, Fabinho, Neca, Lina, Fabí, Gui, Luizinho, Tatá, Juninho, Zezinho, uma pequenada que não se apequena, e que me fez sentir parte dessa notação gigante. Incluído.

Isso faz todo o sentido. Não há inclusão em um ambiente unilateral. Só há inclusão quando permitimos a troca.

Interagir é se compreender em outros universos, e a possibilidade de se relacionar com o outro tem poder de transformação.

Porém, não se muda a realidade sem querer.

O que o Guri Santa Marcelina faz na sua missão de inclusão sociocultural é ampliar a visão de futuro que estimula a mudança de paradigmas, ensinando música em um contexto de infinitas possibilidades sem perder a excelência artística.

Seo Vital é morador da região do CEU Veredas onde, junto com alguns alunos do programa empunhados de pandeiro, surdo e triângulo, não fazia a menor cerimônia em levar um forró arretado.

Outro dia, a garotada do CEU São Mateus se vestiu de coral na Verbo Divino, uma casa onde o pessoal da melhor idade recebeu a menoridade cantante.

No trajeto até lá, parecia que era o micro-ônibus musical que descortinava as ruas do Jardim Conquista, todas com nomes de composições populares.

Uma das vias principais revelava: ‘
somos todos iguais.’

Chegamos. Cantaram. Aplausos alvissareiros e, depois, um lanchinho com simpatias.

Não demorou, e o
Seo Galastro soltou a voz acompanhado pela professora Gabriela no teclado.

A opinião era comum: – Ele é sempre assim, o dia inteiro. Tem dia que a gente não agüenta, mas hoje está bem.

Seo Galastro era, então, somente mais um entre os outros tantos guris do dia.

São exemplos de como comunidade e instituição convergem,
na prática.

Isso também acontece nas aulas-espetáculo, normalmente apresentadas nos amplos e confortáveis teatros dos centros educacionais.

Vagner, Renato, Ludmila, Nadir, Nestor, júlio, Marcinho, Vadinho, Tadeu, Marilene, André, todos se divertiam e aprendiam com o chorinho, com Pixinguinha, Sinhô, maxixe, valsa-samba,
‘
Na Glória!’

Lucila apresentava um retrato de Ernesto Nazaré.

Na foto, o autor da peça que seria apresentada a seguir usava um belo bigode à chomberga.

–
Além de compositor, vcs não notam nada diferente nele? Ele não parece com outra coisa?

Alguém da platéia gostou mais da gravata-borboleta:
‘–
Um garçom!’ Risos.

‘–
Parece um pintor!’, sugeriu outro, provavelmente recordando Dali e levando à mesma categoria todos os portadores de bigodes, sem distinção de aspecto, desde que farto.

‘–
Pintor nada, ele é compositor mesmo!', decreta o realista.

‘–
E essa cara de louco, como alguém disse aí?’

Sim, você pode ser louco por música. Como Fabiana, Luciana, Felipe, Maxwel, Beto, Josimara, Guilherme, Ângelo, Anderson, Maurício, Djalma, Karen, Jonathas, Brandon, Eder, Higor, Jennifer, Sayuri, Juliana, Miriam.

Você pode descobrir novas formas de fazer música, mas também aprender a ouvir a música dos lugares, a música que está dentro de cada um, e que nos faz crescer.

Você pode ser branco, preto, amarelo, vermelho, roxo,
um arco-íris ou um retrato em preto e branco.

Você pode manter o respeito, gostar de intercâmbio e de
idéias novas.

Você pode sonhar. Você pode ser o que você quiser.
Até mesmo um guri.


programa guri santa marcelina
veja o ensaio fotográfico aqui.

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27.10.08

e viva o estado da guanabara


a guanabara votou verde, neste último pleito. povo da heróica cidade de são sebastião, olhem só o tipo de notícia, curiosamente anunciada pelo governo do rio logo após as eleições. como disse a minha amiga pillow, nem deixaram o corpo esfriar.

25.10.08

como jogar telebol


telebol
Originally uploaded by Mantelli : GABEIRA 43

o telebol (ou tkbol) é a nova mania das praias do rio, principalmente na orla ipanemense. trata-se de uma modalidade esportiva baseada na prática da telecinese. 
é muito simples jogar: primeiro, forme uma roda com um grupo de quatro a seis amigos paranormais. coloque uma bola de telebol de titânio aeroespacial no centro (certifique-se que o produto tenha o selo de obtenção do metal pelo processo kroll; outra alternativa, mais cara, é a telebola de platina, produzida em larga escala na sumatra). dispute o zerinho ou um para saber quem levanta primeiro a esfera, que deve ser dos modelos de trinta e dois gomos. cada jogador deve se concentrar em gomos específicos e, assim, cuidar do seu próprio lote. com o poder da mente, a telebola deve ficar suspensa no espaço compreendido entre a cintura e uma área correspondente a duas cabeças acima do jogador. obviamente, perde quem deixar a pelota cair.
são consideradas faltas gravíssimas o uso de técnicas não-psicocinéticas (por exemplo, a criação de campos magnéticos com objetos que possam induzir levitação) e ilusionismo. mutantes devem se declarar como tais, pois existe uma categoria específica para eles. o jogador que sentir vontade de espirrar deve pedir para sair.


outro jeito
Originally uploaded by Mantelli
o telebol também é praticado em equipes, quando o principal objetivo da peleja é manter a esfera platinada bem alta no maior tempo possível. a imagem acima mostra um dia no posto 9, quando os competidores se preparavam para a seletiva do mundial de bangladesh.
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24.10.08

pós-nostalgia


enfim
Originally uploaded by
Mantelli


cascos, velas, caos, esta é uma questão que pouco importa, agora. fui tomado de assalto por letras bonitas, letras negras, finas, delgadas, era um alfabeto fashion week naquela noite de esguio. bem ouvia jorge, brother, fiquei de pé com minhas próprias obsessões. fui surpreendido pelos meus desejos.
tenho um vento danado de ser leve. vela grande para pouco casco. um espirro e se excedem os nós, nem sei ainda quantos deles mas um dia aprendo.
(remendo de inverno) café ligado na tomada, iogurte natural, granola, mel e um aquecedor quebrado. é o tipo de situação onde você encontra o vácuo, o nada, o juízo final. um anjo com a cara do jece valadão. gracejo infame de quinta. o espelho, eu no espelho, meu espanto especular refletido num corpo de menta. água ártica. palavras pouco gentis. me engano apenas com um meio-banho. o dia está lindo.
estou mergulhado bem fundo num pensamento de óculos, não preciso mais deles. sua música também tem corpo de menta. são pérolas com o sol. como o sol. como você. (minha língua dilata quando penso nisso)
cheio da contundência de nelson, criei bigode para ímã de decotes. pouca coisa (ou nada) é o que parece ser. por que, afinal, me surpreendo? a gente (ou nada) é o que parece ser.
(...)
estava bem, muito bem, entreatos. entreazuis. e algumas outras cores que refletiam, de vez em quando, nos cantos dos olhos. ah, só isso era muito bonito, viu?
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22.10.08

a volta do fabuloso homem-caixa




















as origens, primeira parte.

eram três as empilhadeiras que jogavam porrinha na zona cega do pátio. mal acabara de chover e o chão já estava repleto de espelhos. um imenso quadro falso de pollock caprichado pelos pombos e três pequenas e duras pinceladas laranjas no canto da cena. quero dizer, duas – uma acabou de ficar fora do jogo. É o tipo estranho de máquina que tem a sensibilidade de cem camelos de ferro. estimulada pela vibrante peleja de palitinhos, decide, vou fumar. não vá incendiar o galpão, trepidou uma voz de parafusos frouxos, a mesma que ouviu vou incendiar é o seu rabo, palhaço.

se afastou em direção à sombra, até ser notada apenas pela brasa que piscava no escuro a cada tragada. a fumaça cinza-branca fugia do breu igual a pensamento. o que ruminava? outro dia veio à cabeça: o artigo de gênero para empilhadeira é feminino, mas eu sou masculino, pô. e, cá entre nós, o clark é mesmo uma máquina. empilha geral, de um jeito até pouco discreto para um modelo elétrico. ainda que muito interessante (principalmente a parte sobre desmontes), pouparemos os mais jovens dos detalhes picantes e pouco ortodoxos da sua vida sexual. podemos dizer, contudo, que desenvolveu técnicas não muito precisas – mas eficazes – ao usar criativamente as ferramentas certas ao alcance das alavancas, como o seu vasto sortimento de alicates de pressão, alicates para anéis, alicates de corte, brocas, pistolas de ponto estreboscópicas, jogos de fenda, torquímetros, soquetes tailandeses e um sofisticado macaco hidráulico telescópico. o fato é que a carcaça modorrenta e o design ultrapassado de clark encobrem algo bem mais profundo nesta máscara de luxúria besuntada de óleo .

corre à boca pequena que ele esconde a identidade da misteriosa drag empilhadeira de copacabana.  na verdade, existe um segredo tumular guardado naquele rotorzinho anti-ruídos.
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NOTA EXTRAORDINÁRIA. o sindicato das(os) empilhadeiras(ores) elétricas(os), manuais, a combustão e portuárias(os) ganhou recurso que obriga o autor deste blog a dar alternativa de gênero quando forem citadas(os) textualmente as(os) empilhadeiras(ores). este blog refuta de forma contundente a atitude do(a) sindicato(zinho)(zinha), por se tratar  de um problema diacrônico léxico intercontinental, além de se reservar ao direito de não se intrometer na orientação sexual de seus (suas) personagens. para evitarmos possíveis transtornos na compreensão da história e, sobretudo, por assumirmos uma postura ética bem definida com os nossos leitores, a partir dos próximos capítulos chamaremos as(os) empilhadeiras(ores) de hamsters.

21.10.08

revogam-se todos os efeitos em contrário


os dias lindos
Originally uploaded by Mantelli

então é isso. a vocação da boniteza (bonita por natureza), ampla, democrática, irrestrita, voltou. até eu, que estava em processo de fossilização dentro da minha catacumba laborial, saí para dar bom dia ao sol. fui cortês e paciente com pequenas burocracias que, desconfio, não passam de dias nebulosos travestidos de gente engravatada. revisitei os correios, prestativo órgão saudoso das letras que viajam na janelinha. reconheci sorrisos novos, passos contentes, ruas renascidas e até esqueci de uma dissimulada virose (junto com um coquetel de vitamina c, de cautela).
já que estava em missão externa mesmo, pensei em fazer daquelas comprinhas básicas de reposição de mantimentos para o lar, doce lar. curiosamente, a boca escancarada de dentes do céu ipanemense parece ter provocado uma onda histérica incompreensível na população, como se o mundo fosse se precipitar em breve: supermercado lotado, saiam da frente, precisamos estocar nossos porões, bisnagas, pãezinhos, frios, leite, sucos, pizza hoje não tem, não tem também as filas preferenciais para idosos (e sim um grande engarrafamento de velhinhas nos corredores do zona sul), desisto, vou almoçar na rua.
visitei três restaurantes, todos fechados; obras, reformas, maquiagem e quem sabe, a turma foi para a praia. não importa. aproveitem porque, ó, quanta crueldade: a previsão é de tempo bom até sexta-feira.

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