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25.11.11

senza macchina _ 2


fim de feira.

o cara só da banda foi embora e os fiscais já chegam.

uma bola amarela pula na escola sem quadra.


um homem negro de quase cinqüenta anos frita na jaqueta preta de couro.

ele está no meio da rua e parece fingir que fala com alguém

enquanto procura o pau perdido na braguilha aberta.

depois, disfarça uma dança andada até a sombra.


a adolescente carrega uma caixa e uma barriga morena maior que ela.

que a caixa, digo.

ela deixa para trás alguns argumentos roucos de estudantes.

talvez tenham se conhecido algum dia.


papéis, folhetos, reclames, reclamações.

carregadores-gnus, trôpegos de braços e enxertados na função eram muito maiores em seus mundos.

a menina leve de blusinha verdeágua desfilava coque, nariz brilhante e sorriso fino.

era uma nascente.


do outro lado da calçada, a mulher rinoceronte fuma.

decido, então, tomar uma cerveja.

talvez esqueça a braguilha aberta.


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senza macchina _ 1


conversávamos e a luz entrou no tempo de um café frio. ouvimos a janela no primeiro silêncio.

'como é mesmo o nome do cara que faz todos os barulhos ao mesmo tempo?'

como? 'é, na frente, atrás, por todos os lados.' com os instrumentos, você quer dizer;

'sim, com os instrumentos. é o homem de uma banda só.'

desenhei as palavras nos olhos dela durante algum instante e, quando as entendi, fui até a varanda procurar o fulano, e lá estavam a copa de amendoeira e a feira (as quintas-feiras têm as suas próprias cores) e entre uma e outra lá ia ele frisando o mercado, vestindo amarelo velho e vento.

cantava o dia com as barracas, voava música muito além do corpo. era um forró com a cara à banda e voz, tambores, pombos e escola.


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20.10.09

se fizer bom tempo amanhã

sentimentos e abduções


chove no rio de janeiro; chove uma chuva de seda.

a paisagem congelou dentro de um painel amanteigado de papel para presentes.
daqui vejo a história oficial iluminada, lá em cima do morro,
e um friozinho de mentira que só serve mesmo pra contar vantagem.
não é nada sério, só uma impressão de natal.

o resto, tudo normal para a hora e para uma noite mineral:
alguns uivos mansos de carros distantes; a ilusão de ouvir as ondas do alto do catete; uma sinfonia de cricris lá fora; o efeito da maresia no cheiro do tijolo molhado; as cadeiras que não estão nas calçadas; as janelas sérias, circunspectas; poças, pensamentos e o tempo;
é, acho que é isso, talvez seja o tempo.

há uma densidade curiosa no ar. chove na cidade maravilhosa, os cães não ladram e mesmo assim a caravana não dorme. longa mesmo é a madrugada como a de ontem, quando peguei um fanzine chamado kombi, de onde vi das janelas em quadrinhos algumas esquinas que só percebemos de noite (dependendo de onde você estiver, é possível que não reconheça o próprio lugar onde vive). nunca os viadutos foram tão sinuosos, e cada palavra dita era uma multidão. éramos poucos, mas de número suficiente para compartilharmos nossa solidão no caminho para casa. então isso logo passou. como a kombi não era minha, tive que acabar o percurso a pé, num silêncio insone. por onde andava, parecia não haver sombras.

agora estou aqui, na beira de uma das minhas duas margens. dou um suspiro de felicidade ao fitar pela janela nova. acho que nada nem ninguém desafiará meu sono agora. por exemplo, neste exato momento acabei de descobrir que temos uma mosca noturna na região. quero dizer, tínhamos.

o dia ficou tarde e o erário de verão chegou.

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21.11.08

duas coisas bacanas para o fim de.


algum tempo sem postar nada por aqui, mas ao menos retorno com duas dicas quentes.

pra quem vai subir a serra nesse sábado, tem o zé nogueira quinteto, que lança no sesc quitandinha o álbum carta de pedra, com composições do guinga.

e ainda dá tempo de ver a ocupação orquestra improviso no gláucio gil em copa, com a genial tempo. depois, com rodrigo nogueira (o texto também é dele) e fernanda félix, direção da alessandra colasanti.





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27.10.08

e viva o estado da guanabara


guanabara votou verde, neste último pleito. povo da heróica cidade de são sebastião, olhem só o tipo de notícia, curiosamente anunciada pelo governo do rio logo após as eleições. como disse a minha amiga pillow, nem deixaram o corpo esfriar.

21.10.08

revogam-se todos os efeitos em contrário


os dias lindos
Originally uploaded by Mantelli

então é isso. a vocação da boniteza (bonita por natureza), ampla, democrática, irrestrita, voltou. até eu, que estava em processo de fossilização dentro da minha catacumba laborial, saí para dar bom dia ao sol. fui cortês e paciente com pequenas burocracias que, desconfio, não passam de dias nebulosos travestidos de gente engravatada. revisitei os correios, prestativo órgão saudoso das letras que viajam na janelinha. reconheci sorrisos novos, passos contentes, ruas renascidas e até esqueci de uma dissimulada virose (junto com um coquetel de vitamina c, de cautela).
já que estava em missão externa mesmo, pensei em fazer daquelas comprinhas básicas de reposição de mantimentos para o lar, doce lar. curiosamente, a boca escancarada de dentes do céu ipanemense parece ter provocado uma onda histérica incompreensível na população, como se o mundo fosse se precipitar em breve: supermercado lotado, saiam da frente, precisamos estocar nossos porões, bisnagas, pãezinhos, frios, leite, sucos, pizza hoje não tem, não tem também as filas preferenciais para idosos (e sim um grande engarrafamento de velhinhas nos corredores do zona sul), desisto, vou almoçar na rua.
visitei três restaurantes, todos fechados; obras, reformas, maquiagem e quem sabe, a turma foi para a praia. não importa. aproveitem porque, ó, quanta crueldade: a previsão é de tempo bom até sexta-feira.

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