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25.11.11

senza macchina _ 2


fim de feira.

o cara só da banda foi embora e os fiscais já chegam.

uma bola amarela pula na escola sem quadra.


um homem negro de quase cinqüenta anos frita na jaqueta preta de couro.

ele está no meio da rua e parece fingir que fala com alguém

enquanto procura o pau perdido na braguilha aberta.

depois, disfarça uma dança andada até a sombra.


a adolescente carrega uma caixa e uma barriga morena maior que ela.

que a caixa, digo.

ela deixa para trás alguns argumentos roucos de estudantes.

talvez tenham se conhecido algum dia.


papéis, folhetos, reclames, reclamações.

carregadores-gnus, trôpegos de braços e enxertados na função eram muito maiores em seus mundos.

a menina leve de blusinha verdeágua desfilava coque, nariz brilhante e sorriso fino.

era uma nascente.


do outro lado da calçada, a mulher rinoceronte fuma.

decido, então, tomar uma cerveja.

talvez esqueça a braguilha aberta.


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senza macchina _ 1


conversávamos e a luz entrou no tempo de um café frio. ouvimos a janela no primeiro silêncio.

'como é mesmo o nome do cara que faz todos os barulhos ao mesmo tempo?'

como? 'é, na frente, atrás, por todos os lados.' com os instrumentos, você quer dizer;

'sim, com os instrumentos. é o homem de uma banda só.'

desenhei as palavras nos olhos dela durante algum instante e, quando as entendi, fui até a varanda procurar o fulano, e lá estavam a copa de amendoeira e a feira (as quintas-feiras têm as suas próprias cores) e entre uma e outra lá ia ele frisando o mercado, vestindo amarelo velho e vento.

cantava o dia com as barracas, voava música muito além do corpo. era um forró com a cara à banda e voz, tambores, pombos e escola.


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18.8.09

boas-vindas

– chegou a hora de você ouvir todas as importantes considerações sobre o chuveiro.
– como assim?
– é o seguinte, nós também não gostamos, mas ele funciona assim: ou tem pouca água e é um escalda-pele ou é frio à beça e também tem pouca água.
– ah, tá tudo bem..
– e a descarga, olha, é para apertar que nem homem, daí o troço solta lá um som gutural rouco.
– mais alguma coisa? imagino que a pia..
– é, a água da pia também é pouca. mas dá pra usar.
– obrigado, não podia estar mais feliz agora.

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8.7.09

prático




















as noites parecem mais longas. nem os lençóis da cama cobrem os pensamentos. escuto hipnagogicamente variações do jacques loussier trio sobre as gymnopédies do satie. aquela luz panorâmica de abajur é o meu laptop, e sou conduzido até ela. nos tornamos sobreviventes do tempo, e aquela luz me lembra apenas uma parte do espectro de uma metrópole velada de estrelas, de onde sempre tilintavam intermináveis códigos musicais.

estou aqui escorado numa tampa aberta de estante, um remendo de prancheta que me traz alguma satisfação. às vezes me impressiono como consigo encher rapidamente meu local de trabalho com apetrechos, cacarecos, espécies de widgets do mundo analógico, coisas últimas de primeira hora. são conexões, memórias, manuais, anotações em tudo quanto é tipo de papel (há sempre uma grande quantidade deles espalhada por aí para não desprevenir idéias), uma variedade de canetas próprias para esboços únicos (adequadas ao peso e à velocidade da imaginação), uma caneca verde de café esquecida com o primeiro gole, fios que se cruzam e alguns mosquitos filhos da puta deste nosso querido patropi.

a cadeira é confortável. é uma das coisas que ainda carrego comigo, de um ultrapassado empreendedorismo delirante. manter a postura correta, mesmo que seja apenas uma sugestão, inspira saúde. digo, é um belo assento para experimentar inquietude. quem sabe não seria a mesma coisa com um banquinho velho de madeira ou até mesmo um engradado de cerveja. ou um cajón. existem soluções ergonômicas que mal funcionam no ritmo de um ansioso. 

quase sempre o fim do dia é o início da manhã. o silêncio é tudo o que preciso e o único barulho que o entrecorta é o da água que transborda da caixa d'água da minha cabeça. a esta hora o travesseiro é a única companhia e testemunha de uma travessia pelejada na madrugada em transe. escrevo sobre a sombra da minha mão, deitada por uma luz pinacular tão amarela quanto meus olhos insones. tenho que levantar cedo, tarefa robótica que tenta expurgar o sono tardio do despertador. não existirá carcaça que resista ao mau uso.

não gosto da minha primeira cara no espelho. parece um retrato amarrotado recuperado da lixeira. até desenrugar a folha já terei gravado na mente alguns anos a mais. por isso, a água fria no rosto, além de hidratar a pele, te faz esquecer dessas idiotices.

pronto. parece que voltei ao presente novamente. com ele, algumas evidências de realidade. no banheiro, os azulejos cor-de-rosa dos anos cinqüenta me lembram que tenho que trocar a válvula da descarga, ou alguma tarefa parecida com isso. é evidente que a minha inoperância quelônia para assuntos de engenharia civil torna-me incapaz de compreender como funciona um mecanismo tão complexo, composto por pêndulo e bóias acionados pela tal válvula desgastada. ela deve ser a mola que falta no meu cérebro.

porém, não teria a menor vergonha de chegar na loja e dizer em alto e bom tom, 'olha, tenho um problema muito sério na sinapse que me torna inepto em aprender sobre o mais inofensivo dos sistemas hidráulicos, então, por favor, poderia me explicar sobre isso bem didaticamente como se eu fosse o seu neto?' o sujeito atrás do balcão, que bem poderia ser o meu avô – e com um pouco de sorte até seria – demoraria um pouco para reagir às minhas palavras, demonstrando toda a sabedoria e paciência de um ansião do comércio; ou quem sabe seriam os segundos mais longos de uma incredulidade mordaz por causa de tamanha parvoíce.

o café da manhã me reserva um lugar à janela. devoro duas metades de mamão quase soterradas pela granola enquanto penso no destino pictórico das minhas fotografias. antes de sair, alguns rastros de imagens tornam-se menos memórias que ilustrações editadas, prontas para mais um dia como outros tantos; faca, xícara, espatuladas de margarina, laranja, fogão, fio-dental, dentes, espelho, olhos, chaves, porta, rua, tchau.

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21.11.08

duas coisas bacanas para o fim de.


algum tempo sem postar nada por aqui, mas ao menos retorno com duas dicas quentes.

pra quem vai subir a serra nesse sábado, tem o zé nogueira quinteto, que lança no sesc quitandinha o álbum carta de pedra, com composições do guinga.

e ainda dá tempo de ver a ocupação orquestra improviso no gláucio gil em copa, com a genial tempo. depois, com rodrigo nogueira (o texto também é dele) e fernanda félix, direção da alessandra colasanti.





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7.11.08

meu querido diário



Cheguei no primeiro de outubro em São Paulo, uma cidade do tamanho de Luís, Fernanda, José, Pedro, Valéria, Débora, Mauro, Rafaela.

Os sons da paulicéia emolduravam uma pauta de alguns dias e,
sobre o Guri Santa Marcelina, sabia um pouco mais do que isto:
um programa social baseado no ensino musical.

Também lembrava que ‘guri’ significa ‘bagre novo’,
ou algo próximo de ‘peixinho’, numa interpretação mais livre.

Já ouvira falar dos centros educacionais unificados
(e com toda a licença poética, verdadeiros céus de oportunidades implantados em regiões de baixa renda).

Ali, convivi alguns dias com uma pequena parte dos 6500 estudantes de 6 a 18 anos que freqüentam cursos de iniciação musical, canto, instrumentos, prática e teoria: Maria e Luciana, Sérgio e Vanessa, Marquinhos, Patrícia, Bruno, Jacque, Amanda.

Não demorou muito para me sentir embalado pela música que nasce e cresce naqueles lugares.

A petizada tinha nos olhos uma alegria de soltar pipa.
Uma alegria que me fez fotografar sem uma tola idéia de invisibilidade. Uma alegria de guri.

A luz quente dos corredores do CEU Vila Curuçá acalentava
o foco.

Quando emprestamos nosso olhar ao novo, reinventamos e sugerimos novas oportunidades de reconhecimento.

O Maxwel sabia disso: –
Experimenta o trompete, vai.

Era uma mão estendida na forma de instrumento de sopro.
E soprei como avivo um pente nas brincadeiras lá de casa (
ah, vai, não sabia que se tira música de pentes?).

O Felipe acreditou: “– Tá, então faz bico, mas não cospe.”

Quando dei por mim, já estava transformado pela Paulinha e pela Dri, pelo Alex, Fabinho, Neca, Lina, Fabí, Gui, Luizinho, Tatá, Juninho, Zezinho, uma pequenada que não se apequena, e que me fez sentir parte dessa notação gigante. Incluído.

Isso faz todo o sentido. Não há inclusão em um ambiente unilateral. Só há inclusão quando permitimos a troca.

Interagir é se compreender em outros universos, e a possibilidade de se relacionar com o outro tem poder de transformação.

Porém, não se muda a realidade sem querer.

O que o Guri Santa Marcelina faz na sua missão de inclusão sociocultural é ampliar a visão de futuro que estimula a mudança de paradigmas, ensinando música em um contexto de infinitas possibilidades sem perder a excelência artística.

Seo Vital é morador da região do CEU Veredas onde, junto com alguns alunos do programa empunhados de pandeiro, surdo e triângulo, não fazia a menor cerimônia em levar um forró arretado.

Outro dia, a garotada do CEU São Mateus se vestiu de coral na Verbo Divino, uma casa onde o pessoal da melhor idade recebeu a menoridade cantante.

No trajeto até lá, parecia que era o micro-ônibus musical que descortinava as ruas do Jardim Conquista, todas com nomes de composições populares.

Uma das vias principais revelava: ‘
somos todos iguais.’

Chegamos. Cantaram. Aplausos alvissareiros e, depois, um lanchinho com simpatias.

Não demorou, e o
Seo Galastro soltou a voz acompanhado pela professora Gabriela no teclado.

A opinião era comum: – Ele é sempre assim, o dia inteiro. Tem dia que a gente não agüenta, mas hoje está bem.

Seo Galastro era, então, somente mais um entre os outros tantos guris do dia.

São exemplos de como comunidade e instituição convergem,
na prática.

Isso também acontece nas aulas-espetáculo, normalmente apresentadas nos amplos e confortáveis teatros dos centros educacionais.

Vagner, Renato, Ludmila, Nadir, Nestor, júlio, Marcinho, Vadinho, Tadeu, Marilene, André, todos se divertiam e aprendiam com o chorinho, com Pixinguinha, Sinhô, maxixe, valsa-samba,
Na Glória!

Lucila apresentava um retrato de Ernesto Nazaré.

Na foto, o autor da peça que seria apresentada a seguir usava um belo bigode à chomberga.

Além de compositor, vcs não notam nada diferente nele? Ele não parece com outra coisa?

Alguém da platéia gostou mais da gravata-borboleta:
‘–
Um garçom!’ Risos.

‘–
Parece um pintor!’, sugeriu outro, provavelmente recordando Dali e levando à mesma categoria todos os portadores de bigodes, sem distinção de aspecto, desde que farto.

‘–
Pintor nada, ele é compositor mesmo!', decreta o realista.

‘–
E essa cara de louco, como alguém disse aí?

Sim, você pode ser louco por música. Como Fabiana, Luciana, Felipe, Maxwel, Beto, Josimara, Guilherme, Ângelo, Anderson, Maurício, Djalma, Karen, Jonathas, Brandon, Eder, Higor, Jennifer, Sayuri, Juliana, Miriam.

Você pode descobrir novas formas de fazer música, mas também aprender a ouvir a música dos lugares, a música que está dentro de cada um, e que nos faz crescer.

Você pode ser branco, preto, amarelo, vermelho, roxo,
um arco-íris ou um retrato em preto e branco.

Você pode manter o respeito, gostar de intercâmbio e de
idéias novas.

Você pode sonhar. Você pode ser o que você quiser.
Até mesmo um guri.


programa guri santa marcelina
veja o ensaio fotográfico aqui.

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