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18.12.08

a volta do fabuloso homem-caixa, parte 2












resumo do capítulo anterior : clark é um hamster bipolar elétrico e obsoleto que fuma escondido dos pais, dois abajures viciados em pôquer. decide, então, entrar para a terapia aeróbica da rodinha, mas logo percebe que assim sua vida nunca sairia do lugar. para se livrar da conta alta da análise, organiza orgias multi-raciais e arranja um emprego. influenciado pelos colegas invejosos do trabalho, experimenta uma droga lisérgica de procedência duvidosa. a partir daí, os flashbacks de clark são constantes: não raramente ele se vê como uma indestrutível caixa de papelão-craft.

o relógio na parede nem apontava as duas da madrugada e o café já havia congelado na garrafa térmica. sobre a mesa de fórmica, algumas poucas migalhas de um biscoito de gergelim faziam o banquete de trêmulas formigas urbanas. 'duas pequenas janelas', pensava clark olhando para o nada exterior, 'duas escotilhas e eu naufragando do lado de dentro. maldita labuta noturna. maldita ironia da vida, como posso ter virado um montador de caixas quando sempre fui um débil com trabalhos manuais?' e interrompe o pensamento ao descobrir uma tesoura. fez-se um silêncio abrupto e seco. havia uma ferida lá no fundo daquele corpinho de roedor sem revisão há pelo menos dez anos. tomou coragem e encheu o copinho roto de plástico com a sobra de café, chupou a cara de desgosto e desapareceu porta afora.

simone b., uma berinjela de curvas extravagantes, não é o que poderíamos chamar exatamente de pitéu. executiva de ascensão meteórica (desde que chegara à sede da olimpo, uma bem sucedida empresa de design de códigos de barras, galgara o posto de diretora-presidente em apenas três dias), sempre esteve à parte dos ruidosos comentários maldosos sobre as supostas habilidades físicas específicas que levaram-na a alcançar tal feito. 'ela é muito boa no que faz', diz seu protetor, principal acionista e decano da corporação, 'tudo inveja sobre uma moça fina com tantos dons'.

a queda da portaria 3214 da lei 6514 (que regulamentava a obrigatoriedade de técnicos especializados no manuseio de hamsters) e a crescente oscilação da bolsa de valores de cingapura eclodiu a famosa greve do papelão – para muitos, uma manobra de interesses para encobrir o letígio lexicográfico de gênero movimentado contra autores de novelas de vanguarda.

mal começara o seu desjejum e simone b. não entendia muito bem o personagem estampado nas primeiras páginas dos jornais da metrópole, um estranho franzino encorpado num grosso casaco de pele de vison em pleno verão da baía de san sebastian. com um megafone na mão e algumas idéias e frutas tropicais na cabeça, aquele sujeito acangulado e de olhos tristes parecia um paladino sem abadá atrás do seu trio-elétrico. para ela, nada daquilo que ele vociferava fazia sentido: palavras e conceitos démodés como luta de classes, alíquotas sobre seguros contra incêndio e velotrol. a partir daí, nunca mais esqueceria a fisionomia e o nome de clark.

foi então que simone b. decidiu se fantasiar de pandora no carnaval.

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22.10.08

a volta do fabuloso homem-caixa




















as origens, primeira parte.

eram três as empilhadeiras que jogavam porrinha na zona cega do pátio. mal acabara de chover e o chão já estava repleto de espelhos. um imenso quadro falso de pollock caprichado pelos pombos e três pequenas e duras pinceladas laranjas no canto da cena. quero dizer, duas – uma acabou de ficar fora do jogo. É o tipo estranho de máquina que tem a sensibilidade de cem camelos de ferro. estimulada pela vibrante peleja de palitinhos, decide, vou fumar. não vá incendiar o galpão, trepidou uma voz de parafusos frouxos, a mesma que ouviu vou incendiar é o seu rabo, palhaço.

se afastou em direção à sombra, até ser notada apenas pela brasa que piscava no escuro a cada tragada. a fumaça cinza-branca fugia do breu igual a pensamento. o que ruminava? outro dia veio à cabeça: o artigo de gênero para empilhadeira é feminino, mas eu sou masculino, pô. e, cá entre nós, o clark é mesmo uma máquina. empilha geral, de um jeito até pouco discreto para um modelo elétrico. ainda que muito interessante (principalmente a parte sobre desmontes), pouparemos os mais jovens dos detalhes picantes e pouco ortodoxos da sua vida sexual. podemos dizer, contudo, que desenvolveu técnicas não muito precisas – mas eficazes – ao usar criativamente as ferramentas certas ao alcance das alavancas, como o seu vasto sortimento de alicates de pressão, alicates para anéis, alicates de corte, brocas, pistolas de ponto estreboscópicas, jogos de fenda, torquímetros, soquetes tailandeses e um sofisticado macaco hidráulico telescópico. o fato é que a carcaça modorrenta e o design ultrapassado de clark encobrem algo bem mais profundo nesta máscara de luxúria besuntada de óleo .

corre à boca pequena que ele esconde a identidade da misteriosa drag empilhadeira de copacabana.  na verdade, existe um segredo tumular guardado naquele rotorzinho anti-ruídos.
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NOTA EXTRAORDINÁRIA. o sindicato das(os) empilhadeiras(ores) elétricas(os), manuais, a combustão e portuárias(os) ganhou recurso que obriga o autor deste blog a dar alternativa de gênero quando forem citadas(os) textualmente as(os) empilhadeiras(ores). este blog refuta de forma contundente a atitude do(a) sindicato(zinho)(zinha), por se tratar  de um problema diacrônico léxico intercontinental, além de se reservar ao direito de não se intrometer na orientação sexual de seus (suas) personagens. para evitarmos possíveis transtornos na compreensão da história e, sobretudo, por assumirmos uma postura ética bem definida com os nossos leitores, a partir dos próximos capítulos chamaremos as(os) empilhadeiras(ores) de hamsters.