____
23.3.09
da série 'frases de amigos que eu gostaria de ter dito'
Marcadores:
bloco de anotacões,
cotidiano,
literatura porca
26.1.09
paternidade sem manual
andré:
– tá ansioso?
paulo:
– ô.
andré:
– fica tranqüilo, o manual é auto-explicativo.
não pode é se desesperar com qualquer choro.
paulo:
– quer dizer que se eu chorar é normal?
____
22.1.09
lá
ele está de volta
o inigualável polpettone di zena
por andré mantelli
1. massa
meio quilo de farinha e uma xícara e meia de leite (pouco sal);
amasse bem, tem que ficar absurdamente compacta.
abra a massa, de preferência até ficar com pouco menos de 2mm de espessura.
ajeite-a com abas para fora numa forma já untada no azeite,
e então está feita a cama para o recheio gostoso que veremos a seguir.
2. recheio
meio quilo de vagem, um molho de espinafre, três senhoras batatas, duas abobrinhas italianas do tamanho da sua consciência, uma berinjela bonita, 400g de queijo parmesão, uma cebola graúda, três belos dentes de alho, mais azeite (português, ó pá!), um ou dois ovos (depende do ovo e da galinha). tem gente que põe manteiga – eu, não. meu pai colocava noz moscada, mas esta é uma discussão pra lá de filosófica agora.
a vagem (v) e o espinafre (e) serão cozidos no vapor; em outra panela deixe a abobrinha (a) e a berinjela (b) fatiadas com a cebola (c) em pouca água; batatas (bb) numa outra caçarola.
junte num liquidificador, processador ou algo que triture e misture tudo, (e), (a), (b), (c), (bb) e ainda o azeite (quatro colheres de sopa), o parmesão, o alho e o ovo (que é pra dar 'liga').
(v) será adicionada e misturada depois na magnânima pasta resultante desta laboriosa e edificante experiência.
despeje tudo na caminha da forma, que a esta altura já estará ávida por receber tamanho carinho. por cima de tudo, mais uns filetes de azeite e farinha de rosca.
3. assar
dobre as abas sem fechar completamente o centro do 'pastelão';
leve ao forno em temperatura média, e retire quando a massa ameaçar dourar.
4. dicas importantes
tente fazer com que todos os processos terminem ao mesmo tempo (não é bom deixar a massa esticada a esperar tanto);
o polpettone se come frio, melhor ainda se guardado de um dia para o outro na geladeira;
e, por favor, usem as mãos no lugar de talheres.
_____
9.1.09
receita
flores de romã
lascas de romã
chá do alho, socado
cápsulas de echinacea
de seis em seis horas
própolis com malva
própolis com mel
própolis in natura
suco de couve com laranja e cenoura
chá de gengibre
chá de limão
chá de limão e gengibre
pode pôr mel também
gargarejo com romã
sal e limão pra gargarejar também
hortelã e limão
mas o que funcionou, meu bem
Foi a injeção.
_____
31.12.08
ticket

os dias passearam sem que dessem a chance de reencontrar os meus passos.
quando aportei em mim novamente a salinidade do verão, descarreguei um amor eterno enquanto céu.
eu vi, virei, toquei um samba e era meio-dia, o tempo me ensinou a dançar tanto que virou bossa e durante isso tudo reaprendi a cantar a música que sabia que existia em mim, ali, viva, de um presente comicamente germinal.
quantas vezes abri os olhos como se fosse a primeira vez na imensidão.
abracei a paixão das estações e, enfim, aprendi a primeira lição dos navegadores.
o que é preciso e o que não é, mas descabidamente bom.
_____
Marcadores:
bloco de anotacões,
descobrimentos,
literatura porca,
moleskine
18.12.08
a volta do fabuloso homem-caixa, parte 2

resumo do capítulo anterior : clark é um hamster bipolar elétrico e obsoleto que fuma escondido dos pais, dois abajures viciados em pôquer. decide, então, entrar para a terapia aeróbica da rodinha, mas logo percebe que assim sua vida nunca sairia do lugar. para se livrar da conta alta da análise, organiza orgias multi-raciais e arranja um emprego. influenciado pelos colegas invejosos do trabalho, experimenta uma droga lisérgica de procedência duvidosa. a partir daí, os flashbacks de clark são constantes: não raramente ele se vê como uma indestrutível caixa de papelão-craft.
o relógio na parede nem apontava as duas da madrugada e o café já havia congelado na garrafa térmica. sobre a mesa de fórmica, algumas poucas migalhas de um biscoito de gergelim faziam o banquete de trêmulas formigas urbanas. 'duas pequenas janelas', pensava clark olhando para o nada exterior, 'duas escotilhas e eu naufragando do lado de dentro. maldita labuta noturna. maldita ironia da vida, como posso ter virado um montador de caixas quando sempre fui um débil com trabalhos manuais?' e interrompe o pensamento ao descobrir uma tesoura. fez-se um silêncio abrupto e seco. havia uma ferida lá no fundo daquele corpinho de roedor sem revisão há pelo menos dez anos. tomou coragem e encheu o copinho roto de plástico com a sobra de café, chupou a cara de desgosto e desapareceu porta afora.
simone b., uma berinjela de curvas extravagantes, não é o que poderíamos chamar exatamente de pitéu. executiva de ascensão meteórica (desde que chegara à sede da olimpo, uma bem sucedida empresa de design de códigos de barras, galgara o posto de diretora-presidente em apenas três dias), sempre esteve à parte dos ruidosos comentários maldosos sobre as supostas habilidades físicas específicas que levaram-na a alcançar tal feito. 'ela é muito boa no que faz', diz seu protetor, principal acionista e decano da corporação, 'tudo inveja sobre uma moça fina com tantos dons'.
a queda da portaria 3214 da lei 6514 (que regulamentava a obrigatoriedade de técnicos especializados no manuseio de hamsters) e a crescente oscilação da bolsa de valores de cingapura eclodiu a famosa greve do papelão – para muitos, uma manobra de interesses para encobrir o letígio lexicográfico de gênero movimentado contra autores de novelas de vanguarda.
mal começara o seu desjejum e simone b. não entendia muito bem o personagem estampado nas primeiras páginas dos jornais da metrópole, um estranho franzino encorpado num grosso casaco de pele de vison em pleno verão da baía de san sebastian. com um megafone na mão e algumas idéias e frutas tropicais na cabeça, aquele sujeito acangulado e de olhos tristes parecia um paladino sem abadá atrás do seu trio-elétrico. para ela, nada daquilo que ele vociferava fazia sentido: palavras e conceitos démodés como luta de classes, alíquotas sobre seguros contra incêndio e velotrol. a partir daí, nunca mais esqueceria a fisionomia e o nome de clark.
foi então que simone b. decidiu se fantasiar de pandora no carnaval.
_____
Marcadores:
andré mantelli,
cartuns,
filosofia e mitologias,
homem-caixa,
ilustrações,
literatura porca
Assinar:
Postagens (Atom)

