7.3.10

inverno de verão


um gosto afiado de morte na boca.
um alfinete trespassado
qual inseto raro assassinado num isopor barato.
uma janela que não é minha
e que não está aqui
porque a que vejo tem uma madeira ardida
que só existe lá no interior.
não consigo compor uma música para mim
e por isso penso que os dias acabaram.

(os mesmos dias,
as mesmas músicas,
o mesmo gosto)

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12.1.10

macumba


quis viver de renda e foi
pro ceará
comprou o bilhete errado e
ainda saiu pela tangente.

tanta gente
tanta gente

vias de uma mão só são
despropósitos
hiatos embarreirados
mesóclises empoleiradas
piões empoeirados.

quis viver apenas:
enganou-se
de novo
e vestiu a roupa de domingo.


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20.10.09

se fizer bom tempo amanhã

sentimentos e abduções


chove no rio de janeiro; chove uma chuva de seda.

a paisagem congelou dentro de um painel amanteigado de papel para presentes.
daqui vejo a história oficial iluminada, lá em cima do morro,
e um friozinho de mentira que só serve mesmo pra contar vantagem.
não é nada sério, só uma impressão de natal.

o resto, tudo normal para a hora e para uma noite mineral:
alguns uivos mansos de carros distantes; a ilusão de ouvir as ondas do alto do catete; uma sinfonia de cricris lá fora; o efeito da maresia no cheiro do tijolo molhado; as cadeiras que não estão nas calçadas; as janelas sérias, circunspectas; poças, pensamentos e o tempo;
é, acho que é isso, talvez seja o tempo.

há uma densidade curiosa no ar. chove na cidade maravilhosa, os cães não ladram e mesmo assim a caravana não dorme. longa mesmo é a madrugada como a de ontem, quando peguei um fanzine chamado kombi, de onde vi das janelas em quadrinhos algumas esquinas que só percebemos de noite (dependendo de onde você estiver, é possível que não reconheça o próprio lugar onde vive). nunca os viadutos foram tão sinuosos, e cada palavra dita era uma multidão. éramos poucos, mas de número suficiente para compartilharmos nossa solidão no caminho para casa. então isso logo passou. como a kombi não era minha, tive que acabar o percurso a pé, num silêncio insone. por onde andava, parecia não haver sombras.

agora estou aqui, na beira de uma das minhas duas margens. dou um suspiro de felicidade ao fitar pela janela nova. acho que nada nem ninguém desafiará meu sono agora. por exemplo, neste exato momento acabei de descobrir que temos uma mosca noturna na região. quero dizer, tínhamos.

o dia ficou tarde e o erário de verão chegou.

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28.8.09

as paredes não ouvem


agora estou numa caixa de livros e cafés
entre duas extensas ruas movimentadas.
uma elza soares ventríloqua sussurra,
no meu ouvido esquerdo
segredos do casal protossilábico sentado a dois metros de mim.
no ouvido direito, uma nuvem carregada
e os roncos pneumáticos de motores além-janelas.

a bateria do ipod acabou.
nem adiantaram mais dois pares de pernas
para arrumar rapidamente
um refúgio decente nessa balbúrdia toda,
longe desse ensurdecedor som selvagem
que corre impunemente pelas ruas.
diáfano desejo,
ondas sonoras caseiras
e toda a coragem que o silêncio contém.
o ipod mudo, sem música, sem vídeos,
sem o escudo mágico de invisibilidade
que me torna espectador do mundo.
estou aqui, sozinho e insonoro.

as vozes levitam no ambiente como bolhas de espumante.
existe uma certa embriaguez
para me trazer de volta à realidade.
o mundo é uma droga e é dele que sugo
uma seiva psicotrópica que reescreve lugares e pessoas.
presto atenção apenas nos retalhos.

assim.

telefone celular,
caldereta de vidro,
garrafa azul de plástico,
tampo de mármore da mesa,
guardanapos de papel.

a garçonete arrasta um prato, reco-reco.
cadeiras de madeira, oiti, jacarandá, mogno,
não é nada disso,
não sei nada apesar da cara-de-pau.
cadeiras alinhadas em série como torres de alta tensão.
as mesas, com os desenhos de xadrez na pedra,
são mais vazias porque estão fora de jogo.

a garçonete com os braços cruzados de vermelho.
ela olha para o casal protossilábico,
não sabe se ouve a conversa ou se a reinventa.
não sabe se vive a vida alheia ou se corre para casa.
será que mora no subúrbio?
será que ela anda de trem?
será que tem algum bicho de estimação,
um cão, gato, jabuti, peixe, maritaca?
será que ela sabe cantar ou,
quem sabe ainda, dançar?
será que vai ganhar na loteria?

água mineral carbogasosa,
alcalino-bicarbonatada,
alcalino-terrosa litinada e fluoretada.

estão pensando em abrir uma empresa.
é o casal que agora abriu as comportas das palavras fáceis.
eu não sei direito quais os trâmites, ela diz,
só sei que vou tentar passar a conversa na minha mãe
pra ela liberar alguma grana.
ele mal esconde columbinamente as palavras sob o bigode ralo.
arrulhos e bugalhos.
negócios. ela já fala nas parcerias
e na maria alice que é quem nem tinha pensado.
não é só uma empresa para ganhar o salário. gênios.
o sistema aniquilou o romantismo,
o sonho dos corações anarquistas.

cazuza e bebel, salvem a minha tarde.
eu preciso dizer que

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18.8.09

boas-vindas

– chegou a hora de você ouvir todas as importantes considerações sobre o chuveiro.
– como assim?
– é o seguinte, nós também não gostamos, mas ele funciona assim: ou tem pouca água e é um escalda-pele ou é frio à beça e também tem pouca água.
– ah, tá tudo bem..
– e a descarga, olha, é para apertar que nem homem, daí o troço solta lá um som gutural rouco.
– mais alguma coisa? imagino que a pia..
– é, a água da pia também é pouca. mas dá pra usar.
– obrigado, não podia estar mais feliz agora.

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14.8.09

rodorrefrigerador surtado

cliente
da viação cometa para curitiba
última chamada para embarque na plataforma seis
boa viagem

última chamada para embarque na plataforma
de número oito
boa viagem

o desafio (...) é criar uma artéria nova

cliente da viação cometa com destino a belo horizonte
embarque imediato na plataforma vinte e oito
mudou da plataforma catorze para a vinte e oito
boa viagem

dezessete de novembro
e finalmente a temperatura caiu o suficiente

'vamos conseguir que esteja tudo de pé em seis semanas'
neve,
neve por toda a parte

o suficiente para alimentar as três máquinas de neve

partículas deste material parecem
quase tão forte quanto o gelo

a máquina será capaz de criar neve
a ponto de poder produzir cerca de trinta mil
bonecos de neve

'eles vieram de todas as partes do mundo'

clientes da autoviação mil e um
para niterói
horário de vinte e três horas e trinta minutos
embarque imediato na plataforma dois
boa viagem

'e me sinto como se fosse derreter'

clientes expresso do sul
com destino para o rio de janeiro
horário de vinte e três horas e trinta e cinco minutos
embarque imediato na plataforma nove

ele não precisa de um suporte extra
e pode criar as estruturas mais extraordinárias
e graciosas

essas máquinas são utilizadas como

clientes da viação cometa para juiz de fora
embarque imediato na plataforma catorze

boa viagem.

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desenho de janela (apenas o essencial)

bom dia,
veias entupidas de piche,
tiras de luz a pino,
deslocamento pendular
sem eixo,
sem eira,
nem beira.

todo dia é sempre igual:
as veias esticadas ao sol,
as pessoas dentro delas
e que nelas divagam
obstinadas,
obliteradas,
absorvidas.

bom dia,
pode acreditar,
é um sotaque fácil.
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