19.12.10

o homem é o que é


imigração


o parvo chega na lanchonete e desvia o olhar da garçonete. 'café?' ela intimida. sim, 'espresso', não sou rápida e você deve agradecer por isso, acho que sim já agradeço desde já.
pediu um pão na chapa com pouca manteiga enquanto mordia desejos no desjejum. distraído pelas notícias do telejornal, perdeu o foco na primeira curva. assistia a verdade pelas câmeras de segurança. mais rápidos que batedor de carteira eram os pensamentos dela, e ele tolamente acreditava que eram os olhos. os olhos dela, o negrume, a passagem para o infinito, o insondável, o buraco. o café. 'nada de leite, por favor', sim claro puro como sempre, e por que seria diferente hoje, porque um dia as coisas mudam.


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assovio da moleira quente

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canção no sol

enquanto esperava o tempo chegar.

o tempo não chegou

riu invisível

da minha distração.


(o tempo me contemplou)


sol também ri

até quando tempo é noite

e volta pra casa insone

pronto pra partir insípido.


pensando em letras:

daqui da janela uma fogueira

cheia de vozes ao redor

ilumina um ritual de intenções sem volta.


acordei grama pisada

sem saber se era sonho ou suor,

e não saberei de nada além azul.


sereno na lama

banhado de espírito

sujo de blu.



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12.7.10

pequena crônica abandonada


vinte e uma e quarenta e cinco da noite e eu não estava lá. quinze minutos depois, passávamos a limpo os enigmas da história universal. a gênese de sempre: casais, relacionamentos, maturidade, fidelidade, alguns equívocos possíveis. era para ser uma terapia de bar, o coração do rapaz estava trucidado. "minha mãe havia alertado,'não vá fazer bobagem, você mal conhece essa menina", mas quem se conhece? pensava o infeliz.
quase onze da noite, as palavras ainda estavam alagadas com o carro por causa das chuvas de são paulo e então chegaram os pratos.

(calabreza do estadão. a lingüiça – ainda com tremas – vem aberta ao meio, prensada e tostada na chapa. o vinagrete em cima formava uma bonita composição com os tomates incolores. parecia refrescar a áspera superfície terracota daquele pedaço de porco arreganhado.)

ele rabiscava no ar com um palito de batata frita a sua filosofia; "você tem razão, quando acaba o respeito, acaba a casa." seus olhos revelavam mais cicatrizes na alma que um disco do bowie.
meu amigo é um desses caras bonitos com cara de gringo sujo e imoral. porém, sujeito fino e sensível, padece do mal que implica a sua aparência contrária. a fama ruim era boa. a questão era evidente, por que não aproveitar então?
o balcão já parecia vazio, mas sabíamos que naquele momento estavam conosco ana, maria, juliana, paula, natália, fernanda, thaís, bruna, janaina, melissa, lúcia, tatiana, beatriz, vera, helô, mariana, enfim, todas as filhas da chiquita bacana que num átimo perpétuo eram fragrâncias de memória.
um rosto nos cortou de volta à realidade. "mano, me paga um sanduíche?"
antes de abrir a porta do carro, resmungou alguma coisa novamente sobre a enchente.
no fim da noite estávamos salvos.

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7.3.10

inverno de verão


um gosto afiado de morte na boca.
um alfinete trespassado
qual inseto raro assassinado num isopor barato.
uma janela que não é minha
e que não está aqui
porque a que vejo tem uma madeira ardida
que só existe lá no interior.
não consigo compor uma música para mim
e por isso penso que os dias acabaram.

(os mesmos dias,
as mesmas músicas,
o mesmo gosto)

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12.1.10

macumba


quis viver de renda e foi
pro ceará
comprou o bilhete errado e
ainda saiu pela tangente.

tanta gente
tanta gente

vias de uma mão só são
despropósitos
hiatos embarreirados
mesóclises empoleiradas
piões empoeirados.

quis viver apenas:
enganou-se
de novo
e vestiu a roupa de domingo.


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20.10.09

se fizer bom tempo amanhã

sentimentos e abduções


chove no rio de janeiro; chove uma chuva de seda.

a paisagem congelou dentro de um painel amanteigado de papel para presentes.
daqui vejo a história oficial iluminada, lá em cima do morro,
e um friozinho de mentira que só serve mesmo pra contar vantagem.
não é nada sério, só uma impressão de natal.

o resto, tudo normal para a hora e para uma noite mineral:
alguns uivos mansos de carros distantes; a ilusão de ouvir as ondas do alto do catete; uma sinfonia de cricris lá fora; o efeito da maresia no cheiro do tijolo molhado; as cadeiras que não estão nas calçadas; as janelas sérias, circunspectas; poças, pensamentos e o tempo;
é, acho que é isso, talvez seja o tempo.

há uma densidade curiosa no ar. chove na cidade maravilhosa, os cães não ladram e mesmo assim a caravana não dorme. longa mesmo é a madrugada como a de ontem, quando peguei um fanzine chamado kombi, de onde vi das janelas em quadrinhos algumas esquinas que só percebemos de noite (dependendo de onde você estiver, é possível que não reconheça o próprio lugar onde vive). nunca os viadutos foram tão sinuosos, e cada palavra dita era uma multidão. éramos poucos, mas de número suficiente para compartilharmos nossa solidão no caminho para casa. então isso logo passou. como a kombi não era minha, tive que acabar o percurso a pé, num silêncio insone. por onde andava, parecia não haver sombras.

agora estou aqui, na beira de uma das minhas duas margens. dou um suspiro de felicidade ao fitar pela janela nova. acho que nada nem ninguém desafiará meu sono agora. por exemplo, neste exato momento acabei de descobrir que temos uma mosca noturna na região. quero dizer, tínhamos.

o dia ficou tarde e o erário de verão chegou.

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