24.1.20
Fim e começo.
(...)
Já cantavam os afro-sambas: é onda que vai, é onda que vem. É vida que vai, é vida que vem. Já disse que gato escaldado tem sete vidas. Tomei várias vacas neste ano. É onda que vai. Isso me acordou. É onda que vem. Sete ondas inesgotáveis para pular.
A onda nº 1 é onda que vai, leva a brisa que serena a pele esturricada; paleta de verdes; o que não está num mecanismo pré-concebido de ações; vontades e desejos; a sensação mucilaginosa de voar dentro de uma onda; pernas contentes num balé pendular para o céu; minha consciência condensada num corpo integrado no espa..e passa a morena curiosa de floral verde, leve, carregando todo o sorriso da praia na onda nº 2, onda que vem, com três-marias tatuadas atrás da orelha; duas gaivotas jovens brincando de sereia; tolices de casais teimosos; indiazinhas gêmeas em verde e amarelo; é sorvete da kibon é mate é coca é água; água do mar em garrafas pet; pranchas enterradas no deserto do arizona no momento quando vai a onda nº 3 e me desperta para um banho de mar e de repente me vi naquela ilustração do sempé das pessoas felizes que renascem nas ondas; uma andorinha do mar graduada e alguns súditos pardais espavoridos; deus do céu ,que belo lombo!; noto que a morena verde é docemente desajeitada; e vem um vento que só faz passar; assim como passa o vendedor colorido de cangas, assim como o tempo é anacrônico e absoluto; e lá vêm os saltitantes biscoitos globo; e junto com a onda que vem – a onda nº 4 – os ploques secos e isolados do frescobol; o esganiço de algum bacuri eletrecutado pela alegria; as flores que enviei para você; um coracão atropelado e fretado sem endereço; a espessa cortina de maresia que acaricia a paisagem; não tem mais a morena que brinca de pés trocados porque peguei o foco e fui embora; as folhas de palmeira que roçam e cantam depois do almoço e na onda nº 5, a onda que vai e leva pra longe um cartão postal de esquecer mágoas; algumas medidas de melancolia para encontrar a paz, porque afinal a tristeza é um lembrete de dedo (se fôr mesmo verdade que há uma certa tristeza para ser feliz); desenhos de azulejo para terra crua; churros no arpoador; as nuvens tímidas de céu que nos espiam por detrás dos morros; a ciclotimia exultante dos atalhos morais; a relevância dos fatos; a onda nº 6 que vem, carrega as barracas que voam gargalhadas em bando; um arrastão histriônico; uma revolução de todas as coisas cômicas e cosmogônicas; a liberdade das coisas cônicas, poliédricas e amorfas; a lotação dos sentidos na autoestrada; a violência do silêncio anti-monotonia; um tratado ornitológico para amizades leves; e é na onda nº 7, a onda que vai, que me apresento o descobridor dos sete mares, vestido com as flores do dia anterior, das entidades livres e da macumba sem cartório; coeso em um patamar inocente de plantar caminhos; pronto para conduzir meu estandarte em alto-mar mal-traçado; em auto-mór reinventado e abdicado das idéias mortas; e do camarote assisto a decadência de um império de tendências; regozijo o realejo e de repente é onda que vem, como vieram todas as outras ondas e é onda que vai, mas que, antes mesmo de se compreender qual seria o destino de todas as próximas (ou a origem das anteriores), será sempre a onda que é, a onda que está, a onda que leva consigo nenhum juízo de nada, a onda relativa que é só o efeito em cadeia de uma transformação maior, única e intensa. Prova disso, a evidência incontestável: é ano que vai, é ano que vem.
2008.
* texto de passagem que vale para todos os anos
2.3.18
24.10.17
17.9.15
O mar não está pra peixe
Sobre sereias e aquários
e
26.2.15
maremoto
Não és mar
mas
maremoto
E eu
nesta maré
foto
Grafo as ondas
e as atravesso
roto
Em você
(terra à vista)
broto
Não és mar
mas
ela
Vento e
barco
a vela
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7.1.15
9.11.13
eclipse em escorpião
acho que a morte deve ser uma experiência mineral,
uma saudade-fóssil igual a quando o amor se vai.
(o amor não vai, meu caro, o amor está aí)
qualquer medo é inútil:
todo fim é um abismo que revela
nossas próprias asas.
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6.11.13
Dochenmachers
Estavam encaixados na cama, ao mar sereno. Os dedos flutuavam, bem devagar, rasantes desenhos nas peles enquanto conversavam. Era uma preguiçosa manhã de domingo.
ela
Sabe, tava pensando aqui quando a gente tiver nossa filha... Ela vai brincar com as bonecas que guardei da minha infância. Aliás, se for menino também.
ele
Claro que não.
ela
O que é isso? Qual o problema dele brincar com a Barbie?
ele
Isso. A Barbie. Olha só o que essa boneca representa.
ela
Não acredito nisso. Você acha mesmo que faz diferença? Que tem como evitar? É uma blindagem boba, a gente não dá e vem algum padrinho, alguma tia ou prima distante e pronto. Além disso minha Barbie é morena.
ele
Mas continua a Barbie.
ela
Porra, muda o nome então. Chama, sei lá, de Susie, de Teresa!
ele
Ou Maria Bonita.
ela
Clarice Lispector.
ele
Rá, sabia, a Clarice de novo. É Clarice ali, Clarice aqui e acolá, Clarice no feicebuque, nem da Barbie ela se safa.
ela
Caraca, tu é chato quando quer, hein? Chama de qualquer merda então!
ele
Taí, 'Qualquer Merda' é bom.
ela faz uma caretinha
Idiota.
(silêncio breve)
ele
Porra, Barbie 'Clarice Lispector' é genial. Pode vir com um baralho de citações.
ela ri
Pára, chega! (...) Ah, sabe, tenho que confessar que cheguei a pensar que você fosse me criticar porque o nosso filho...
ele interrompe
Fred.
ela
Quêisso, maluco, já dando nome pro garoto?
ele
Não, o nome da boneca. É Fred.
ela não entende mas ri assim mesmo
Hã?
ele
Barbie 'Fred Mercury!' A gente pinta um bigode nela, põe uma roupa igual àquela do vídeo 'I want to break free.'
ela suspira, depois de um breve silêncio
Ah, não sei. Discordo, tem que ser internacional, é?
ele
Quêisso, surto nacionalista agora?
ela
Não, mané, a gente tem tanta referência boa por aqui...
ele
Verdade! Mané, por exemplo, lembra até o Garrincha.
ela
Ih, nem vem que ele vai ser flamenguista.
ele
Caralho.
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5.11.13
Pequena canção cabisbaixa (com ponto de fuga)
perdi.
perco todos os dias,
todos os minutos,
me perco em milésimos
de segundo.
quando penso
já foi,
perdi.
perdi;
não me perderam
nem perceberam.
o que foi não volta
e
todos as noites estão
estateladas.
perdi,
não esquecerei
da falta de fé:
meu nome riscado,
meu ego na grama,
minha beca
de mané.
Dry Square
arrombada, estuprada.
Moisés, auxiliar de pedreiro,
de bico em bico ajudou
a abrir mais um corredor no meio
daquele mar.
"Deus escreveu,
vamos lá executar a sua obra."
A Praça Seca foi executada
por obra divina;
bagunçaram seu coreto azul
agora órfão de praça.
Uma praça que não pediu para ser
o Mar Vermelho:
uma verdade carmim
sem paz celestial.
Arregaçada praça
das vidas secas,
lodo e cascalho,
atalhos para pedestres,
motos,
tiros,
sangue e
asfalto.
22.10.13
Farfalle al Pesto de Zêna
500g de farfalle (porção para 4 pessoas);
2 ramos médios de manjericão (misturar tipos é bem bacana, varie a cada nova experiência!);
2 molhos de espinafre (ou bertalha);
1 cebola média;
2 dentes de alho bem picado;
2 colheres/sopa de manteiga sem sal;
6 colheres/sopa de azeite extra virgem;
1 raladinha de noz moscada;
300g de queijo pecorino ralado(substitua ou misture com um bom parmesão, se for o caso);
50g de pinoli (se não achar – ou se encontrar com qualidade ruim, farelento – substitua por nozes trituradas);
Tomate-cereja a gosto.
2. Como fazer
a. No copo do liquidificador, coloque a cebola, o alho, manteiga, azeite, noz moscada.
b. Separe apenas as folhas do espinafre, sem os talos. Faça o mesmo com o manjericão.
c. Separe uma panela grande para cozinhar a massa. Com água, coloque primeiro o espinafre e espere ferver. Um minuto depois, acrescente o manjericão. Mais um minuto, coe as folhas mas reserve a água. Coloque as folhas no liquidificador junto com o queijo e liquidifique, aos poucos, acrescentando um pouco da água fervida das folhas até o molho verde atingir uma densidade cremosa.
d. Numa frigideira em fogo brando, pingue duas gotas de azeite e jogue os pinolis. Toste-os até passarem ligeiramente do tom rosado. Se não tiver pinoli, misture um pouco de nozes trituradas ao molho e guarde um pouco para jogar sobre o prato pronto.
e. Jogue a massa na água das folhas e espere ficar al dente.
f. Sirva os pratos (grandes, rasos e brancos!) individualmente com a pasta primeiro, depois o molho, os pinoli, tomates cortados e um pouco mais de queijo.
24.7.13
Sai do chão, sai do chão, quem é contra a remoção.
Lá dentro, em um dos cômodos começava o que rapidamente identificaria como um 'laboratório de resistência.' As pessoas estavam ali contra a demolição do prédio e a remoção de seus moradores. E a banda que se propunha a compartilhar suas composições e letras, desdobrar novos arranjos a partir daquela experiência, era nada mais nada menos que os Beatles.
Lembro vagamente de mais pessoas chegando ao tal ensaio, mas 'encorpadas' (talvez fossem os policiais) que se agregavam ao ritual. Ninguém saiu.
Acho que a casa permaneceu em pé.
25.7.12
senza macchina _ 3
25.11.11
senza macchina _ 2
fim de feira.
o cara só da banda foi embora e os fiscais já chegam.
uma bola amarela pula na escola sem quadra.
um homem negro de quase cinqüenta anos frita na jaqueta preta de couro.
ele está no meio da rua e parece fingir que fala com alguém
enquanto procura o pau perdido na braguilha aberta.
depois, disfarça uma dança andada até a sombra.
a adolescente carrega uma caixa e uma barriga morena maior que ela.
que a caixa, digo.
ela deixa para trás alguns argumentos roucos de estudantes.
talvez tenham se conhecido algum dia.
papéis, folhetos, reclames, reclamações.
carregadores-gnus, trôpegos de braços e enxertados na função eram muito maiores em seus mundos.a menina leve de blusinha verdeágua desfilava coque, nariz brilhante e sorriso fino.
era uma nascente.
do outro lado da calçada, a mulher rinoceronte fuma.
decido, então, tomar uma cerveja.
talvez esqueça a braguilha aberta.
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senza macchina _ 1
conversávamos e a luz entrou no tempo de um café frio. ouvimos a janela no primeiro silêncio.
'como é mesmo o nome do cara que faz todos os barulhos ao mesmo tempo?'
como? 'é, na frente, atrás, por todos os lados.' com os instrumentos, você quer dizer;
'sim, com os instrumentos. é o homem de uma banda só.'
desenhei as palavras nos olhos dela durante algum instante e, quando as entendi, fui até a varanda procurar o fulano, e lá estavam a copa de amendoeira e a feira (as quintas-feiras têm as suas próprias cores) e entre uma e outra lá ia ele frisando o mercado, vestindo amarelo velho e vento.
cantava o dia com as barracas, voava música muito além do corpo. era um forró com a cara à banda e voz, tambores, pombos e escola.
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22.12.10
19.12.10
imigração
assovio da moleira quente
.
canção no sol
enquanto esperava o tempo chegar.
o tempo não chegou
riu invisível
da minha distração.
(o tempo me contemplou)
sol também ri
até quando tempo é noite
e volta pra casa insone
pronto pra partir insípido.
pensando em letras:
daqui da janela uma fogueira
cheia de vozes ao redor
ilumina um ritual de intenções sem volta.
acordei grama pisada
sem saber se era sonho ou suor,
e não saberei de nada além azul.
sereno na lama
banhado de espírito
sujo de blu.
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