25.7.12

senza macchina _ 3


saudade não assusta, não engana nem morre de véspera.
não é só uma lembrança fotográfica.

saudade é lembrança morta-viva,
tecnologia-mor ectoplasmática impossível de fotografar
– embora a encontremos frequentemente em molduras de janelas,
pétalas secas, carnaval, encartes de disco, cheiro de graxa,
abraços, temperatura da areia, olhos oblíquos e

saudade não vem antes de acontecer,
não: isso seria melancolia, montanhas,
clube da esquina.

saudade é condimento, cor, cheiro, pele, tatuagem, solzinho, chuvisco, luz na varanda:
vontade de pôr no presente o imaterial,
um mistério-gosto permanente de fogo.

saudade é feliz,
e a tristeza que você sente passa.
com o tempo vem o desapego
e é assim mesmo,
tudo passa.


25.11.11

senza macchina _ 2


fim de feira.

o cara só da banda foi embora e os fiscais já chegam.

uma bola amarela pula na escola sem quadra.


um homem negro de quase cinqüenta anos frita na jaqueta preta de couro.

ele está no meio da rua e parece fingir que fala com alguém

enquanto procura o pau perdido na braguilha aberta.

depois, disfarça uma dança andada até a sombra.


a adolescente carrega uma caixa e uma barriga morena maior que ela.

que a caixa, digo.

ela deixa para trás alguns argumentos roucos de estudantes.

talvez tenham se conhecido algum dia.


papéis, folhetos, reclames, reclamações.

carregadores-gnus, trôpegos de braços e enxertados na função eram muito maiores em seus mundos.

a menina leve de blusinha verdeágua desfilava coque, nariz brilhante e sorriso fino.

era uma nascente.


do outro lado da calçada, a mulher rinoceronte fuma.

decido, então, tomar uma cerveja.

talvez esqueça a braguilha aberta.


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senza macchina _ 1


conversávamos e a luz entrou no tempo de um café frio. ouvimos a janela no primeiro silêncio.

'como é mesmo o nome do cara que faz todos os barulhos ao mesmo tempo?'

como? 'é, na frente, atrás, por todos os lados.' com os instrumentos, você quer dizer;

'sim, com os instrumentos. é o homem de uma banda só.'

desenhei as palavras nos olhos dela durante algum instante e, quando as entendi, fui até a varanda procurar o fulano, e lá estavam a copa de amendoeira e a feira (as quintas-feiras têm as suas próprias cores) e entre uma e outra lá ia ele frisando o mercado, vestindo amarelo velho e vento.

cantava o dia com as barracas, voava música muito além do corpo. era um forró com a cara à banda e voz, tambores, pombos e escola.


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22.12.10

1 segundo


acho que ela estava lá. acho que não tirei os olhos dela. acho que estava bêbado.

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19.12.10

o homem é o que é


imigração


o parvo chega na lanchonete e desvia o olhar da garçonete. 'café?' ela intimida. sim, 'espresso', não sou rápida e você deve agradecer por isso, acho que sim já agradeço desde já.
pediu um pão na chapa com pouca manteiga enquanto mordia desejos no desjejum. distraído pelas notícias do telejornal, perdeu o foco na primeira curva. assistia a verdade pelas câmeras de segurança. mais rápidos que batedor de carteira eram os pensamentos dela, e ele tolamente acreditava que eram os olhos. os olhos dela, o negrume, a passagem para o infinito, o insondável, o buraco. o café. 'nada de leite, por favor', sim claro puro como sempre, e por que seria diferente hoje, porque um dia as coisas mudam.


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assovio da moleira quente

.


canção no sol

enquanto esperava o tempo chegar.

o tempo não chegou

riu invisível

da minha distração.


(o tempo me contemplou)


sol também ri

até quando tempo é noite

e volta pra casa insone

pronto pra partir insípido.


pensando em letras:

daqui da janela uma fogueira

cheia de vozes ao redor

ilumina um ritual de intenções sem volta.


acordei grama pisada

sem saber se era sonho ou suor,

e não saberei de nada além azul.


sereno na lama

banhado de espírito

sujo de blu.



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